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Indústria de alimentos se endivida e investidor recua

A Condere registrou neste ano, até abril, 12 transações de fusões e aquisições no setor de alimentos e bebidas na América Latina e 33 no mundo. Em 2019, foram 60 no mundo

Cibelle Bouças,  Valor Econômico

19 de junho de 2020

A indústria de alimentos tem sofrido menos do que outros setores os impactos negativos da pandemia de covid-19. Mas isso não foi suficiente para manter o interesse de investidores para adquirir participações ou a totalidade de empresas do setor. A conclusão faz parte de um estudo global da consultoria Condere, especializada em fusões e aquisições.

 

De acordo com o levantamento, as empresas do setor de alimentos têm feito mais operações de financiamento bancário do que ofertas de venda de participação acionária, aproveitando as taxas de juros mais baixas no mundo. Como consequência, o endividamento cresceu e o risco também, tornando os ativos menos atraentes.

 

A Condere cita como riscos ao setor a queda no consumo com a recessão global e a necessidade de fechamento de fábricas devido a possíveis contaminações por covid-

19. A Smithfield Foods, Campbell Soup Company, Tyson Foods, JBS e Calvo estão entre as empresas que tiveram de fechar fábricas temporariamente.

 

O aumento dos riscos do mercado associados à pandemia também levaram os bancos a aumentar em 1 a 2 pontos percentuais a taxa de juros aplicada sobre os empréstimos a empresas do setor, dependendo da nota de crédito da companhia. Na média, as dívidas líquidas aumentaram o equivalente a 0,5 vez o seu lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda).

 

“Os fundos de investimentos estão com muito recurso para investir, mas estão mais seletivos na escolha de ativos”, diz Paulo Cury, sócio diretor da Condere.

 

Cury observa que o modelo de investimento mudou. Em geral, os fundos têm preferido investir menos dinheiro nas transações, mas incluem cláusula que permite elevar o valor investido ao longo do tempo, dependendo do desempenho da companhia.

 

A Condere registrou neste ano, até abril, 12 transações de fusões e aquisições no setor de alimentos e bebidas na América Latina e 33 no mundo. Em 2019, foram 60 no mundo. As operações têm envolvido principalmente empresas de logística, comércio eletrônico e de alimentação saudável.

 

Alex Cerri, especialista em alimentos e bebidas e sócio da Condere, lembrou que empresas como restaurantes e lanchonetes e seus fornecedores sofrem mais com a pandemia do que outros segmentos do setor. “Vemos menos impacto, por exemplo, nas indústrias de alimentos processados porque, embora atendam o varejo alimentar, elas têm condições de redirecionar a produção para venda em supermercados”, disse Cerri.

 

Alguns restaurantes perceberam a necessidade de mudar a forma de produção para fazer entrega de comida a domicílio. Reúnem-se em um só local para preparar os pratos - as “dark kitchens”, no jargão do setor- e isso reduz seus custos, observou Cury.

 

Na avaliação dos analistas, o setor de alimentos e bebidas deve encerrar o ano de 2020 com o mesmo nível de produção visto antes da pandemia. A recuperação será mais lenta, no entanto, para o segmento de “food service”. Em relação ao Brasil, os analistas consideram que o real desvalorizado em relação ao dólar e ao euro pode ser um atrativo para a volta dos investidores nos próximos meses.

 

 

 

 

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