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CONDERE NA MÍDIA

Por que a VisaNet vale tanto

Márcio Kroehn - Isto É Dinheiro

Pouco antes das 10 horas da segunda-feira 29 de junho, o botão da abertura simbólica do pregão eletrônico foi acionado. O rosto sorridente e o dedo forte de Lázaro Brandão, presidente do conselho do Bradesco, davam início à estreia das operações da VisaNet na BM&FBovespa, depois de tantas idas e vindas que adiaram por mais de quatro anos a abertura de capital da empresa.

 

"O namoro foi longo", disse Brandão à DINHEIRO, após a chuva de papel prateado laminado cobrir o saguão da bolsa. A VisaNet estreou com a pompa e o título simbólico de maior IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial) da história brasileira. Foram R$ 8,4 bilhões captados, o que deixou os R$ 6,6 bilhões da exploradora de petróleo OGX para trás. De quebra, o apetite dos investidores internacionais com as escassas oportunidades de bons negócios fez do IPO da VisaNet o maior do mundo neste ano, superando o grupo industrial chinês Zhongwang Holdings, de US$ 1,2 bilhão (R$ 2,4 bilhões). Com tantos predicados, é preciso entender o que torna tão cobiçada essa empresa que faz a captura das transações com cartões de crédito e débito da bandeira Visa.

 

A VisaNet é um exemplo da transformação da economia brasileira. Ela chega à bolsa como uma das 15 maiores companhias em valor de mercado, à frente das tradicionais Usiminas, Embraer e Cyrela, que fazem parte de setores que sustentaram o crescimento do País por muitos anos. Agora, a prestação de serviços surge como a nova estrela da economia. É aí que se encaixa a VisaNet. Nos últimos anos, o consumo das famílias foi um importante combustível para o crescimento do Produto Interno Bruto. Em 2007, o poder aquisitivo familiar cresceu 6,3% e no ano passado, 5,4%, segundo o Banco Central (BC).

 

As projeções para este ano, apesar da crise financeira, são de aumento de 1,5%. À medida que a renda das famílias cresce, sobra dinheiro para investimentos e consumo. E quem consome precisa gastar. Hoje 21,4% dos pagamentos feitos pelas famílias são com cartão de crédito ou débito. Nos EUA, de cada US$ 100 consumidos, US$ 44,50 passam pelo dinheiro de plástico. "O ambiente é bem favorável para o mercado de cartões", diz Paulo Cury, sócio da consultoria Condere.

"O setor está em crescimento, o crédito está em expansão e a baixa renda começa a consumir." Ao lado da Redecard, responsável pelas operações da bandeira concorrente MasterCard, a VisaNet estimulou o movimento de substituição do cheque como meio de pagamento pelos cartões de crédito e de débito. As duas empresas passaram a espalhar as suas maquininhas de captura por todo o Brasil. Atualmente, estão presentes em praticamente todos os municípios brasileiros que tenham energia elétrica.

 

A VisaNet tem equipamentos até em aldeias indígenas e bancas de coco verde nas praias. Essa conquista de território pode ser verificada nos últimos cinco anos. Em 2003, os cheques respondiam por 39,5% do total de transações financeiras, de acordo com o BC. No ano passado, por apenas 16,5%. Nesse mesmo período, os cartões aumentaram sua participação de 32,2% para 53,8% do total. Com um maior número de locais para aceitar o dinheiro de plástico, explodiu o número de cartões de crédito e débito.

 

Saltou de 150 milhões para 341 milhões em cinco anos, segundo a Associação Brasileira de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). A bandeira Visa tem uma participação de mercado de 47%. Desde 2000, o número de transações aumenta na casa dos dois dígitos anuais. "O crescimento do mercado de cartões continuará forte nos próximos anos", prevê o consultor Boanerges Ramos Freire.

 

De olho nessa tendência, os investidores internacionais compareceram em peso e demandaram tantas ações da VisaNet que o preço final do IPO saiu pelo máximo da oferta, a R$ 15,00. É uma mostra do quanto eles acreditam no setor de varejo e no mercado interno do País nesse momento de retomada da economia internacional, avalia o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto.

 

"Os estrangeiros estão de olho no crescimento do consumo interno no Brasil. E a VisaNet está presente em quase todo o território nacional e tem um volume de transações impressionante", afirma o executivo. E daí? Aqui, como lá fora, cash is king. Cada pagamento com cartão se transforma em comissões para a empresa, ou seja, em dinheiro vivo. Oito milhões de transações diárias renderam R$ 3,2 bilhões de receitas antes dos impostos em 2008 e um lucro de R$ 1,39 bilhão.

O presidente da bolsa espera que a VisaNet seja para o mercado o que foi a Natura em 2004. "Atrás da Natura vieram mais de 100 empresas. A VisaNet reabriu o mercado de IPOs após a crise", comemora Pinto. Se ele estiver certo, muitos lançamentos previstos - Light, MRV, Hypermarcas, Magazine Luiza e outros - agitarão os pregões nos próximos meses, com repercussões sobre todo o mercado.

 

Outro feito da empresa foi superar uma crise interna que manchou sua imagem na época do escândalo do mensalão, que derrubou autoridades no primeiro mandato do governo Lula. Em 2005, descobriu-se que o Banco do Brasil fez pagamentos à agência de publicidade de Marcos Valério, a DNA, utilizando recursos do fundo de marketing da VisaNet, ao qual tinha direito por ser acionista. O caso veio à tona e estremeceu as relações entre os dois maiores acionistas da credenciadora, o BB e o Bradesco. A demora do IPO teve ligação direta com esse episódio.

 

Pesquisa feita no primeiro semestre de 2007 ainda ligava a companhia ao mensalão, o que exigiu um grande esforço de marketing. A marca foi remodelada, com a letra N em maiúscula, a palavra Visa em azul e a Net, em laranja. Na ocasião, o mercado de capitais estava no auge e a concorrente Redecard aproveitou para captar R$ 4,1 bilhões em julho de 2007, um recorde até então.

 

A VisaNet esperou o IPO da Visa nos Estados Unidos, em março de 2008 (US$ 17,8 bilhões), para registrar sua emissão, mas o mercado se fechou com a crise de crédito mundial e só agora o IPO saiu da gaveta. Não sem, antes, promover uma mudança na cúpula da empresa, exigência do Bradesco para a operação.

 

Antonio Luiz Rios, funcionário do BB, presidente da companhia por quatro anos, deu lugar a Rômulo de Mello Dias, do Bradesco BBI. A decisão foi tomada no final de maio do ano passado, em uma reunião a portas fechadas entre Bradesco, Banco do Brasil e ABN Real (atual Santander), o terceiro maior acionista. Pessoas próximas contam que Lázaro Brandão queria um profissional de sua confiança à frente da VisaNet quando ela fosse estrear na BM&FBovespa.

 

O executivo escolhido fez questão de agradecer o gesto. "Quero pedir licença para fazer um agradecimento especial ao Lázaro Brandão", disse Mello Dias no seu discurso de apresentação da empresa na bolsa. Na plateia, os ouvidos atentos de Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, do conselheiro Márcio Cypriano, dos vice-presidentes Arnaldo Vieira e José Luiz Acar Pedro, responsável pelo BBI. Mello Dias mergulhou na operação. Em pouco tempo ficou tão confortável no cargo que transformou a preocupação dos principais executivos em sossego.

 

Faltava acertar a data de estreia na bolsa. O temor dos erros do passado voltou à tona. Principalmente pela aproximação de uma data crucial. Dia 30 de junho seria o último dia da consulta pública feita pelo governo para mudar as regras do mercado. O BC identificou um duopólio de VisaNet e Redecard, que detêm 94% das transações e 90% do volume financeiro de compras com plástico no País. Algumas sugestões apresentadas são a separação das linhas de negócios (escolha entre captura de transações ou credenciamento de lojas), o fim da exclusividade no credenciamento das bandeiras e o compartilhamento das maquininhas.

 

"O mercado tende a ficar menos vantajoso para VisaNet e Redecard se as regras mudarem", pondera Cury, da Condere. "A rentabilidade é maior que a média da economia brasileira", acrescenta Freire. Os executivos da VisaNet temiam que a força da nova regulamentação pudesse trazer prejuízos e evitar o sucesso da operação. Aproveitaram o apetite do investidor internacional e lançaram as ações no dia 29 de junho, antes do final da consulta pública.

 

O governo federal aperta de um lado e comemora de outro. O lançamento de ações da VisaNet rendeu mais de R$ 2 bilhões em impostos. Não se sabe quanto tempo irá durar a atual euforia da bolsa brasileira - o Ibovespa subiu 37% no ano até quarta-feira 1o e o papel da VisaNet subiu 18,9% em três dias - nem as regras de competição no mercado da VisaNet. Mas é seguro que o presidente Mello Dias terá que conviver nos próximos 12 meses com um grande desafio. Em 30 de junho de 2010 vence o contrato de utilização gratuita da marca Visa pela VisaNet.

 

A empresa precisará negociar o pagamento de royalties. Ou seja, é dinheiro vivo que pode sair do caixa e, portanto, do bolso dos acionistas, que, por enquanto, não são atendidos de forma adequada. Um dia depois do IPO, a VisaNet ainda não tinha um site de relações com investidores na internet, como mandam as regras da boa governança.

 

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